Realidades do meu viver...

Numa dessas, ainda me acabo com esse blog!

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

É de Baixo que se começa...

O Distrito Federal é um produtor de arte, assim como todo o Brasil. Aqui se desenvolve pintura, moda, fotografia artística, música, dança, cinema e o teatro. Como existem regiões com mais interesses e capacidade de ajudar na divulgação do trabalho artístico, tanto por questões financeiras quanto como urbanas, algumas cidades a população não possui o costume de admirar produções artísticas, ou a densidade populacional é pequena. Por estes motivos e outros, Muitos produtores não têm reconhecimento, algumas vezes por trabalharem em regiões de aspectos sociais e culturais com menos incentivo, tanto por órgãos governamentais ou por verba dos próprios produtores, não há divulgação de seu trabalho pela mídia, não havendo assim receptividade crítica pelo público.
Alguns artistas apesar dessas adversidades ainda conseguem vencer essas dificuldades, e atingem seu objetivo, expõem seu trabalho, conseguem até mesmo reconhecimento nacional. Geralmente acabam procurando cidades em que a vida artística tem mais futuro profissional, como Rio de Janeiro e São Paulo.
Com essa conquista de reconhecimento, vê-se que os profissionais de teatro brasilienses vêm tendo uma grande aprovação; são exemplos grupos como “os melhores do mundo”, “de 4 é melhor!”, e artistas como Murilo Rosa, Ana Paula (Casseta & Planeta) e Nívea Stelmann. Mas como começaram estes artistas? Nenhum deles foi gerado já em grupos profissionais, todos têm suas origens artísticas ou tiveram alguma ligação com grupos desconhecidos, grupos amadores do DF que lhes introduziram a vida artística e os permitiram chegar onde estão hoje.
O teatro no Distrito Federal é basicamente amador ou semi profissional; existem também grupos profissionais, que aos poucos foram conquistando seu status a partir de seu próprio esforço; alguns contando com incentivos externos, como patrocínio outros apenas com sua própria capacidade. Vale ainda apresentar alguns desses grupos emergentes nas satélites.
Em quase todas as cidades existem projetos, trabalhos ou grupos que desenvolvem atividades teatrais. Muitos desses grupos, além de oferecer a Companhia, oferecem também oficinas e laboratórios de contato com o mundo cênico para a inserção de pessoas que ainda não têm familiaridade. Nestes grupos além de se passar técnicas de interpretação, também se desenvolve a desinibição das pessoas além dos palcos, sem se esquecer de questões sociais.
Entre esses inúmeros grupos do DF, em Santa Maria, na Biblioteca Pública de Santa Maria Norte, desenvolve-se à mais de cinco anos um trabalho cênico, pela Companhia de Teatro Barcaça dos Beltranos que oferece seu trabalho de inserção ao mundo teatral a jovens das comunidades de Santa Maria, Gama e proximidades. Atualmente o grupo conta com aproximadamente trinta jovens entre 12 e 31 anos.
Nestes cinco anos de existência, o grupo já passou por várias formações e adaptações ano a ano, mas mesmo com as diferenças sempre se possibilitou o sucesso do grupo em sua trajetória, graças à convivência e união que os componentes aprendem a manter. Em dezembro de 2002, o grupo foi iniciado por Daniel dos Santos, ator, aluno da UNB no curso de Artes Cênicas e diretor da Barcaça dos Beltranos com o intuito de “trabalhar o trágico e o cômico com crianças, adolescentes e adultos”, como diz Daniel.
Durante esse período de cinco anos, a Barcaça dos Beltranos já apresentou vários espetáculos. Após cinco meses de sua inauguração o grupo participou do SESC Esquete Show, realizado pelo teatro SESC Garagem em 2003, 57 esquetes se escreveram e o grupo conquistou o terceiro lugar do júri popular do festival com o esquete “Isso”, escrita por Daniel dos Santos, foi a estréia do grupo em teatros na prática. Em 2003, o grupo estreou seu primeiro grande espetáculo, o “Auto da Compadecida” versão original de Ariano Suassuna, que tornou-se o trabalho principal da companhia nos cinco anos que se seguem, o espetáculo foi apresentado no Teatro Escola Parque, da 306 sul e foi noticiado como destaque do caderno cultural de um dos principais jornais do DF. Em novembro de 2003, no colégio Mackenzie, apresenta novamente o “Auto da compadecida”, dando origem a um projeto do próprio grupo “Mudando de Cena” em que apresentam em instituições e escolas gratuitamente ou cobrando preços acessíveis. Já em 2005 a Barcaça dos Beltranos conquista o Prêmio de Melhor Esquete do Júri Popular do SESC Esquete Show, com a esquete “Ò pátria amada, Portuguesa ou à moda da casa?”, escrita por Guilherme d’Carvalho, uma sátira à política brasileira. No mesmo ano o Grupo brilha novamente, desta vez apresentando o “Auto da Compadecida”, onde mais de 500 pessoas lotaram a Sala Yara Amaral (teatro SESI/Taguatinga), com capacidade para 478 pessoas sentadas, se caracterizando como a terceira maior platéia do projeto “Quartas Cênicas”. O mesmo espetáculo foi apresentado no ano seguinte. Em 2007, numa nova roupagem “O Auto da Compadecida”, adaptado por Helio Gomes mesclando cenas da versão cinematográfica com a obra literária, numa versão mais contemporânea o mesmo teatro recebe novamente um enorme público de quase 500 pessoas.
Em 2008, o Grupo pretende mudar o espetáculo principal da companhia, abandonando saudosamente o “Auto da Compadecida” e substituindo-o por “Grease – no tempo da brilhantinha”, musical que será estreado no primeiro semestre de 2009. Em 2008, o Grupo pretende mudar o carro chefe da companhia, abandonando saudosamente o “Auto da Compadecida” e substituindo-o por “Grease – no tempo da brilhantinha”, musical que será estreado no segundo semestre do ano. Além desse espetáculo em 2008 o Grupo apresenta também Pimbinha de Pedro Bloch, Pluft o fantasminha, A Bruxinha que era Boa, ambos de Maria Clara Machodo como espetáculos infantis e como adulto e juvenis A Cantora Careca de Eugene Ionesco e O Casamento do Pequeno Burguês de Bertolt Brecht fechando o ano em dezembro.
“Hoje a Barcaça dos Beltranos não é apenas um grupo de teatro, mas uma ‘escola’ de teatro” diz Daniel dos Santos quando perguntado sobre o grupo. Segundo componentes da companhia o que se aprende durante os ensaios de teatro pode ser utilizado em vários âmbitos da vida. “O grupo desenvolve atividades cênicas simples que aumentam nossa desinibição e nossa sociabilidade”, afirma Rafael Gomes, 18 anos, estudante. Já Bruna Regina de Sousa, 20 anos, estudante de direito, diz “O grupo me ensina a desenvolver minha interação extra pessoal [...] Não vejo o teatro como meu ganha pão o vejo como um aditivo, até mesmo na minha futura Profissão”.
No teatro se aprende questões fundamentais como a noção de hierarquia e experiência, durante os ensaios vários assuntos “extra teatrais” são passados aos integrantes dos grupos, aprende-se muito a respeito de postura física e moral, trabalha-se simultaneamente a integridade de cada um dos grupos e dos grupos em si.
Pode-se constatar que grupos amadores desenvolvem seu trabalho por todos as partes do DF, desenvolvendo trabalhos que ligam o indivíduo ao grupo e o grupo ao meio social. Não havendo, assim, motivos que expliquem a falta de incentivo a esse trabalho que revela vários talentos, situação contrária ao que ocorre em grupos no Rio de Janeiro, por exemplo, como o grupo Nós do Morro que recebe incentivo tanto governamental como por algumas empresas privadas. O teatro desenvolvido em regiões carentes se torna um escape à criminalidade e uma nova forma de lazer, desenvolvendo a responsabilidade dos jovens envolvidos.

Rafael de Carvalho

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