Dignidade de homossexuais ainda é ferida cotidianamente. Letícia Maria vislumbra um mundo em que homossexualidade não seja vista como diferença, mas como algo que deixa as pessoas mais felizes
Rafael de Carvalho Gomes
– Olha, lá vai o viadinho...
– Ela é sapatão...
– “Bissexual”? Isso não existe são todos um monte de bichas...”A manifestação de preconceitos em relação à orientação homossexual costuma surtir efeitos: pessoas se isolam, se escondem, se ocultam e se privam de exercer seus direitos, até mesmo, de agir naturalmente e ser simplesmente elas mesmas.
Apenas em 1991 o homossexualismo deixa de ser visto como doença psicológica pela Organização Mundial da Saúde. Desde então, a nomenclatura “homossexualismo”, que denota enfermidade, foi alterada para homossexualidade.
Escolha – Psicólogo, especializado em sexologia humana, Paulo Roberto Britto diz que um jovem homossexual não entra na vida homo por escolha, ou como é comumente dito, por opção.
Ser homossexual é uma condição, assim como ser heterossexual também é uma condição humana. “Ninguém chega a um homem ou mulher héteros e pergunta: ‘você é hétero desde quando?’.
Para Paulo Roberto Britto, o gay ou a lésbica nasce homoafetivo, assim como os heterossexuais nascem heteroafetivos. Ninguém de um dia para o outro cria uma preferência para seguir; não vejo motivos para se fazer uma pergunta desse tipo a um homo”.
Problema – Hoje o maior problema para o homossexual, argumenta o psicólogo, é o preconceito ou a falta de aceitação, dele mesmo ou de familiares ou amigos. “O maior problema da homossexualidade, não está no homossexual ou na prática homossexual, e sim na discriminação a que o próprio homo se remete ou é remetido”.
O que define a sexualidade é apenas o tipo de afetividade que uma pessoa pode seguir na sua vida. Ela pode ser heteroafetiva, ou homoafetiva e até mesmo ter as duas afetividades. Isso em nada está ligado à “criação”, pai ou mãe “ausentes”, históricos de abuso e até de “genes”:
“Se esses motivos influenciassem mesmo, filhos de mesmo pai e mãe iguais teriam que ser obrigatoriamente todos gays ou todos héteros – ou toda pessoa abusada seria necessariamente homoafetiva, o que não ocorre de fato”, argumenta o sexólogo.
Terapias – Quando perguntado sobre tratamentos psicológicos, que pessoas homossexuais procuram ou são encaminhados por familiares, Paulo Roberto Britto responde que, no caso dos homoafetivos, que se vêem com problema e precisam de tratamento para se livrar, ele tenta indicar um tratamento para aumentar a auto-estima.
Já quando parentes o procuram, ele indica tratamento para essas pessoas de aceitação de diferenças. “O problema não está no gay ou na lésbica”, diz, “e sim em quem não consegue conviver com esses elementos sociais em harmonia, por que ai a pessoa também não saberá lidar com o negro, com o pobre, com o deficiente, etc.”
Espaços – Para Paulo Britto a sociedade e a mídia já vêm abrindo espaços maiores para os homossexuais. “Já há o retrato de forma séria e bem sucedida em novelas, séries internacionais e etc.”, complementa.
“A sociedade, hoje, não se importa tanto com a sexualidade individual, existe o preconceito, mas estamos numa ‘era’ de abertura, que necessita ainda da libertação de antigos conceitos de isolamentos, hoje não tão necessários.”
Novidades – Na conversa com jovens homossexuais, percebe-se uma visão mais renovada do homossexualismo; mais liberdade de comunicação e formação de grupos homossexuais; menos correspondência a “estereótipos” (os homens não são “efeminados” e nem as mulheres são “masculinizadas”). As pessoas não demonstraram preocupação com se expor em entrevista.
Hoje em dia homossexuais não precisam mais viver isolados. “Meus amigos, grande maioria sabe, pois também são homossexuais ou bissexuais. Como diria uma velha amiga minha ‘o mundo é gay, o resto são meramente aparências’”(risos), afirma Fernanda Santana, de 20 anos.
Com certeza, ser homossexual é mais seguro do que há cem anos, mas a sua dignidade pessoas ainda é ferida cotidianamente, afirma Pedro William, 21anos quando perguntado a respeito do preconceito. “Tento buscar forças para suportá-lo e superá-lo”, diz.
Histórias – Apesar dessas mudanças, todas sofreram ou presenciaram episódios de preconceito contra conhecidos, e até citam exemplos. “Estávamos saindo de carro, quando passamos por certa ‘blitz’ de rotina e mandaram parar o carro, revistaram e tal; daí quando viram que se tratavam de homossexuais, falaram: ‘pode passar, isso aí é um bando de viado’, foi muito constrangedor”, conta Pedro Willian.
“Já presenciei, sim. Em parte foi comigo também”, diz Lucas Queiroz, de 19 anos. “Estava em um bar GLS, daí chegaram os ‘polícia’, que fecharam o estabelecimento. Não chegaram a me destratar, mas vi gente sendo. Enfim, foi uma típica ação preconceituosa.”
Sonhos – Eles vêem, num futuro não muito distante, um mundo mais igualitário. Um mundo sem homofobia é o mundo em que cada um vai poder ser ele mesmo sem pensar na aceitação do próximo.
Letícia Maria, 25 anos, ressalta: “vejo um mundo mais igualitário daqui a uns 50 anos, em que a homossexualidade não seja mais vista como uma diferença e sim como algo que deixa as pessoas mais felizes (...) e sei que de algum modo eu estou participando dessa mudança apenas por estar aqui prestando essa entrevista”.
Lucas Queiroz complementa: “Já existem vários locais em que me sinto à vontade em público, em que posso andar de mão dada, claro, sem abusos, mas já é um bom início, talvez daqui um tempo ande assim em qualquer lugar".
Texto publicado no blog Diante Disso:
http://diantedisso.spaces.live.com/ , Onde se encontram vários outros textos meus e dos colegas de curso.
Rafael de Carvalho