Realidades do meu viver...

Numa dessas, ainda me acabo com esse blog!

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Hidrelétricas: da aula de 5ª série à contestação na rua

Exploração da força motriz da água e do seu potencial para gerar energia elétrica criou uma legião de deserdados: os “atingidos por barragem”. Eles se mobilizam por indenizações, têm um dia um dia internacional de luta, e questionam o poder das grandes empresas na definição do “modelo energético”

Aline Costa, Mariana Damaceno, Rafael de Carvalho Gomes e Tainá Gonçalves

É terça-feira, 14 de abril de 2009, por volta de 14 horas. O sol se esconde entre as nuvens, venta e faz um friozinho de 22ºC. O trânsito, na via W3, está tranqüilo. Na esquina da quadra 103 Sul, há uma banca de revista. E, entre prédios residenciais à direita e à esquerda, o Centro de Ensino Fundamental 03 (CEF 3). De fora de suas grades, a escola parece vazia. O portão verde de ferro está semi-aberto.

Na entrada do colégio, cujas paredes são brancas com detalhes verdes, está o porteiro – simpático senhor negro de quase 1.80m de altura. Já se sente o gostoso clima de escola pelo zum-zum-zum da criançada nas salas de aula. Na coordenação, tudo corria bem, até dois alunos serem suspensos por atirarem bolinhas de papel no professor – estavam enfurecidos. Um sinal para os alunos mudarem de sala toca às 14h50min. Fuzuê nos corredores. Minutos depois, tudo está calmo novamente.

Gauchês – Para uma turma de quinta série, a professora de ciências Rosilaine Gomes de Andrade dá aula sobre água e energia. Com um sotaque “diferente”, espécie de “gauchês”, Rosilaine explica aos alunos o que é e como funciona uma usina hidrelétrica. No fim da aula, pede-lhes que pesquisem na internet e façam a lista de todas as usinas hidrelétricas construídas ou em construção no Brasil que conseguirem achar.

Os alunos da quinta série não se saíram mal no trabalho. A maioria conseguiu fazê-lo graças ao auxílio da Wikipedia. Em algumas folhas de papel ofício era prazeroso ver bordas coloridas, cabeçalho, o cuidado com a letra, enfim, o capricho com que listavam as hidrelétricas. Até os menos caprichosos conseguiram fazer suas listas.

Moinhos – O uso de energia hidráulica foi uma das primeiras formas de se substituir o trabalho animal pelo trabalho mecânico, de início para bombeamento de água e para a impulsão de moinhos de grãos. Seu sucesso como fonte de trabalho se deu pela disponibilidade de recursos (água), facilidade de aproveitamento e, principalmente seu caráter renovável.

A energia hidráulica resulta basicamente da irradiação solar (provém o ciclo da água) e da energia potencial gravitacional. Ao contrário de outras fontes de energia renováveis, ela representa uma parcela significativa da matriz energética mundial. Atualmente, é a principal fonte de energia para mais de trinta países, incluindo Canadá, EUA e o Brasil. No total, representa cerca de 17% da obtenção da eletricidade no mundo.

Principal fonte – Na América do Sul como um todo, a energia hidráulica é a principal fonte de energia elétrica. Tal fato se deve a uma geografia propícia e rica em recursos naturais. Para obter-se energia elétrica através de recursos hídricos é necessário aproveitar uma queda d’água ou uma propulsão causada pela massa da água.

Dados apresentados pelo Ministério de Minas e Energia mostram que o Brasil é um dos países mais dependentes de energia hidrelétrica no mundo. O país tem cerca de 600 barragens, e na América Latina lidera o ranking, seguido pela Argentina com 101, e depois pela Venezuela, que possui 72 barragens.

Junto com Paraguai, o Brasil possui a maior hidroelétrica do mundo, com a capacidade de aproximadamente 12.600 megawatts. No entanto, mesmo com todo o benefício gerado a partir da construção de hidrelétricas não é possível ignorar os impactos sociais e ambientais que essas barragens provocam.

Tipos – Algumas localidades dão condição natural para a obtenção da energia; porém nestes casos apenas Centros Geradores de Hidreletricidade (CGH) são construídos. Os CGHs produzem no máximo 1 mw (Megawatt) de energia elétrica em sua função plena.

Para a produção em grande escala de energia elétrica, grandes barragens são construídas. As PCHs (Pequenas Centrais Hidrelétricas) variam sua produção de 1mw até 30mw e as UHEs (Usinas Hidrelétricas), geradoras de no mínimo 30mw, necessitam da formação de lagos artificiais em suas barragens para o abastecimento e para a movimentação das imensas bobinas de propulsão. Quanto maior a usina, maior o lago e maior a produção de energia.

Importância – As usinas hidrelétricas estão entre as principais fontes de produção de energia elétrica do mundo. Abastecem zonas agrícolas, residenciais e industriais. Diante da atual crise mundial de energia, grupos econômicos nacionais e estrangeiros, na intenção de dominar as fontes energéticas, mostram-se cada vez mais interessados na construção de barragens.

Na maioria dos países desenvolvidos – como os EUA, Europa e Japão –, os principais rios já foram utilizados para a construção de usinas. Nestes países não é mais possível a construção de barragens. Assim, a “indústria de barragens” pressiona novas regiões no mundo para manter seus negócios e faturamento.

Em potencial hidrelétrico, o Brasil perde apenas para Rússia (13%) e China (12%). Cerca de 70% de seu potencial tecnicamente aproveitável ainda não é utilizado. Segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), a região Norte possui 64% do potencial a aproveitar, a Sul tem 21%, 8% estão na região Sudeste, 3 a 4 % no Nordeste e 2 a 3% no Centro-Oeste.

Impactos negativos – Tudo muito bonito e tudo muito funcional, porém existe um outro lado que ainda não foi citado. Na implantação desses grandes lagos, algumas questões, tanto ambientais quanto sociais, devem ser levadas em conta, como a biodiversidade do local, o próprio ambiente ou paisagem, se se preferir, e comunidades humanas ribeirinhas ou regionais que sofrem mudanças com essas atitudes.

Animais são expulsos de seu habitat no início de obras como essas, ou sofrem gradualmente mudanças de hábito. Na construção de uma barragem, paisagens são reconstruídas, áreas que tinham serras, campos, plantações, criação de bovinos são substituídas por uma imensidão de água, paredões de concreto e centena de aparatos que dão sustento às barragens ou usinas.

Ribeirinhos – Outros atingidos diretamente e negativamente pela construção de hidrelétricas são as populações ribeirinhas, tanto próximas às barragens em si ou no curso normal de rios e lagoas desviadas para o abastecimento das mesmas, e também comunidades rurais que têm suas casas expropriadas a partir de acordos, alagadas ou destruídas, e se vêem obrigados a abandonar toda uma história de vida e se ordenarem, algumas vezes, até em outra situação como a urbana.

Ainda que continuem no local, precisam mudar seus hábitos, costumes e passar a usufruir do espaço de outra maneira, como é o exemplo de alguns criadores de gado que trocam seu foco econômico, deixam a pecuária e investem na piscicultura (criação de peixes) para pesca esportiva, pesque-pagues e também investimentos em hotelaria. Várias pousadas crescem ao redor das lagoas de barragens.

Polêmicas – Desde a década de 70, a construção de barragens no Brasil tem gerado grandes polêmicas e transtornos. Segundo especialistas do Banco Mundial e o Relatório Final da Comissão Mundial de Barragens (WCD), essas obras tiveram os mais adversos impactos nos últimos 40 anos: empobrecimento e deslocamento de pequenos agricultores, divisão desigual de custos e benefícios, destruição de ecossistemas, entre outros.

Estimativas apontam que cerca de 40 a 80 milhões de pessoas foram deslocadas nos últimos 50 anos. As barragens de Itaparica e Sobradinho foram responsáveis pelo deslocamento de cerca de 120.000 pessoas.

Resistência – Na primeira metade da década de 80, as populações afetadas começaram a protestar contra os impactos negativos que esses projetos causavam. Esses pequenos grupos receberam o apoio de ONGs e setores progressistas de igrejas e universidades. Aos poucos, foram se consolidando movimentos sociais de extensão regional e nacional e começaram a cobrar do governo brasileiro medidas de regulamentação.

Destes protestos surge a adoção em 1981, 1986 e 1987 da legislação ambiental nacional que estabelece um processo de licenciamento ambiental, que vem acompanhado de uma série de estudos, exigidos pelo Banco Mundial e o Banco Interamericano de Desenvolvimento, para a implantação de usinas hidrelétricas. Durante o mesmo período, os movimentos formados no início da década se articularam para, em 1989, formar o Movimento Nacional dos Atingidos por Barragens (MAB).

Necessidades industriais – O setor elétrico brasileiro foi reestruturado. O governo, visando atender suas necessidades industriais, começou a incentivar a formação de consórcios de empresas privadas que gerassem energia. As empresas estatais dependiam do BIRD para obter recursos para os investimentos e este foi o argumento utilizado para privatizar o setor. Assim, alguns projetos de construção de barragens foram criados como o da Bacia do Alto Rio Doce na Zona da Mata de Minas Gerais.

Estudos da Eletrobrás e do Governo Federal apontam 1.443 novos projetos de barragens, que se encontram inventariados e/ou em análise de viabilidade. As barragens já expulsaram aproximadamente mais de 1 milhão de pessoas no Brasil.

Sem emprego e sem casa, a maioria das famílias acaba se abrigando nas periferias das grandes cidades. Pelo fato de não haver legislação que assegure e estabeleça os direitos dos atingidos pelas barragens, nem algum órgão público responsável pelas indenizações e reassentamento dos atingidos é que surgem movimentos como o MAB.
Texto publicado no blog Diante Disso: http://diantedisso.spaces.live.com/ , Onde se encontram vários outros textos meus e dos colegas de curso.
Rafael de Carvalho

2 comentários:

Anônimo disse...

Nuss amigO

Vc tah tão menoS pessoal

Tão jornalistA...
Interessante

Rafael d'Carvalho disse...

shuahsuah... uhm pouquinho de vida profiça e acadêmica suahusa... Assinatura ali de Rafael de Carvalho^^ BjooO Leitora assídua^^
te amO!